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O caminho até o ballet

  • Foto do escritor: jahmayconqueiroz
    jahmayconqueiroz
  • 11 de set. de 2025
  • 2 min de leitura

Por Ana Lara Mota

Todos os dias, no mesmo horário, eu desço do ônibus naquela estrada infinita da cidade. Carrego a mochila nas costas, a minha sapatilha, o cabelo preso no coque e a cabeça cheia de passos de dança que ainda estou tentando decorar. Vou para a aula de ballet, um lugar onde, por uma hora e meia, meu corpo é só meu, ocupado por música e movimento, não por olhos ou palavras que invadem.

Mas antes de chegar lá, existe um trecho. Um corredor de olhares. Uma espécie de pista de obstáculos que nunca muda de lugar, mas muda de rosto.

Desço os degraus do ônibus e, quase no mesmo instante, começa: “oi, vida!”, outra é “tá linda hein!”, como se meu collant e minha calça de moletom servissem de convite para uma conversa que nunca pedi. Às vezes, tentam puxar assunto: “Tá com pressa por quê?”, como se a pressa fosse a única armadura que eu tenho.

E eu sigo reto, rápido, sem olhar para os lados. Não porque sou tímida, mas porque aprendi que olhar de volta pode ser interpretado como interesse. Que o silêncio demais vira “metida”. Que um passo errado transforma o caminho numa armadilha.

Ironia cruel: vou para o ballet, onde o corpo ganha voz, leveza, expressão. Mas no trajeto até lá, meu corpo vira alvo. Um cartaz ambulante que nunca pedi para carregar.

Na escola, me olho no espelho. Tento lembrar que eu sou mais do que aquilo que disseram no caminho. Sou equilíbrio, esforço, repetição, músculos doendo e alma voando. Só ali, entre uma pirueta e outra, eu respiro sem medo.

E amanhã tem mais. Mesma esquina, mesmo ônibus, mesmo caminho. Mas pelo menos tem ballet, talvez seja isso que me salve.

 
 
 

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