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Silêncios que gritam

  • Foto do escritor: jahmayconqueiroz
    jahmayconqueiroz
  • 11 de set. de 2025
  • 2 min de leitura

Por Maria Fernanda 

Todos os dias de manhã, quando estou indo pra escola, sempre escuto coisas horríveis como: “tá gostosa”, “tá linda”, “delícia”. Eles acham que é só um elogio. Acham que estão dando “Bom dia” com um tempero. O que eles fazem tem outro nome: invasão. Uma falta de respeito absurda.

Eu indo para a academia como fazia todos os dias, passos rápidos, olhos atentos, fones de ouvidos, não porque queria ouvir música, mas porque sabia que eles, os fones, afastam conversas indesejadas ou fingem afastar.

Na esquina da padaria, o de sempre: um homem encostado no poste, cerveja na mão, palavras na boca: “Ô, lá em casa, gostosa…” eu nem falo nada, apenas respiro fundo, não por medo, mas por cansaço. Um cansaço antigo, acumulado, dando um nó na garganta.

Indo para o treino a mesma coisa, eu apenas queria ir treinar com minha chuteira na mão, uma garrafa de água e uma roupa larga e mesmo assim sendo assediada no caminho voltando para casa, sempre pensando no “e se alguém mexer comigo…”.

Assédio não é só um grito obsceno ou um toque sem permissão. É o olhar que pesa, a piada que finge ser inofensiva, o elogio que fere. É a constante sensação de estar sendo vigiada, tentar ter um dia normal sem escutar tanta coisa nojenta.

O pior do assédio é que ele não grita, ele sussurra. E nesses assuntos, a mulher aprende a evitar certos caminhos, a mudar a roupa, a andar com as chaves entre os dedos como se fossem armas. Aprender a sempre estar de cara fechada, a baixar a cabeça, a seguir em frente como se fosse normal, mas não é. 

O mundo só vai mudar quando o silêncio dessas histórias parar de ecoar só entre as vítimas, porque o corpo é meu, o caminho é meu e o respeito também deve ser.

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